pouco
José
Ausente
Deve haver uma espécie de sentido ou o
que virá depois?
Caio
Fernando Abreu
Seria
vinte e trinta e cinco este ponto da noite?
Não
faz muito que o sol já foi; o ar ainda parece quente. Em horário de verão se
percebe um pouco melhor das horas. Eu tento adivinhar; porque não há quem me
conte.
As
frutas podres que não comi. Estas manchas, estes marrons sobre suas peles e o
cheiro entre doce e azedo do podre e da putrefação dominam as paredes mofadas
pelo caos que produzi.
Nunca
sozinho para tal feito.
Mas
ultimamente, toda alteração no ambiente, cada aroma ou resto, farelo ou
resquício – eu falo – é de minha autoria.
Eu
escrevo pelos restos do que comi ou guardei a narrativa deste pedaço. Estão os
registros de mim espalhados na poeira dos cantos, nos cabelos soltos pelo piso
de madeira claro; na mancha do lençol bege.
Está
cá a autoria destas horas que me desvestem.
Seguir
as rachaduras que trincam a parede em ramos e galhadas, do teto sentido chão, é
uma leitura de miúdas horas. Quase que ricas.
Não
há instante por aqui que eu não presencio; inda que ausente. O corpo, mesmo
parado, presente.
Que
pensam os conhecidos meus? Poucos, então, acolheram notícias eu devo imaginar.
Mas não me importo. Os pensamentos distantes de outrem não incomodam meu sono,
tampouco saciam minha fome. Há algo sobre os outros que não entendo. E por não
entender é que pereço.
Pereço
de fé, de nota solfejada, de afago mal dado e de oportunidade negada.
Costumo
permitir quando o peito ventila. Mas neste quando existe uma situação de culpa
e doença e meu franco orgulho se curva, então permito. Não é sempre. Aliás, não
faço ideia do que se trata o sempre. Quando dizem a respeito do sempre, minha
consciência se reduz no limite da filosofia e me esmago. Quase que um tilt.
Porém tudo bem. Não incomoda a mim, também, entender a longitude ou efemeridade
que o sempre diz. Talvez ele, o sempre, como tantas outras coisas, sejam poucas
para mim. E se me são poucas, talvez desprezo.
O
pouco que eu digo não se liga à questão matemática do problema e sim a
relevância que tal ponto me atinge. Há muito de pouco neste mundo; ouso: nesta
vida. Então vivo de sobras porque é o que tenho.
Sobra
de um móvel, sobra de uma calça, sobra de comida; sobra de mim. Porque já
disse: há muito de meus restos sobre todo este cômodo.
Pouco
abro a janela. Pouca também é a janela (e no sentido literal!) e só me serve
como atalho para entradas e saída do ar. Ele que também leva de mim, mas sempre
lhe pedi: que leve pouco porque ainda tenho o que preservar. Ainda gosto que o
pouco de mim se mantenha em proximidades; mesmo que vulneráveis. Há um gosto
pelo que sou, mas não muito pelo que sinto. E pelas verdades que evadem dos
meus dedos, então me poupo. Poupo que o sal de mim tempere o mundo porque sei
que sou de perigo. Há rumores de mim que o público não aceita. Portanto, qual
prevenção melhor do que a calada? É porque me poupo que ainda existo, confirmo.
Agora se por quanto e se por sempre eu já não sei.
Há
desenhos de tinta nanquim pendurados perto de onde durmo. Em folhas rasgadas
porque denuncio meu roubo. Preguei alguns para que me certifique de que tudo
aquilo que sai de mim ainda me pertence mesmo que fora. Mesmo que escapados ou
pregados na parede é tudo de mim. Existe no papel velho as formas que pude
desprender; mas, por mais que as liberte não há alívio. Estas partes que se
soltam e compõem uma insólita galeria não são livres de si. Ainda precisam de
mim. Constantemente olho e presenteio com minha veneração porque não há
companhia bem-vinda por aqui. Então fica para mim esta responsabilidade. Não
sei se amanhã é sábado ou quarta-feira.
O
que ouço nos ruídos intrusos não passa de frivolidades que a semana impõe. Não
me interessa o barulho dos outros. Ao passo que o meu barulho, este eu preciso
ficar atento. Porque os sons que ecoam de mim, são as verdades que os ouvidos
negam. Cada toque, esbarro ou tilinto conta. Se entendesse de música,
decifraria cada nota e, quem sabe, acorde. Meus barulhos são arpejos de
solidão. Eu me confundo na música que meu corpo toca. Sorte de um espírito que
não dança.
O
meu espaço é gentil porque me acolhe, mas não abraça. Estas paredes e chãos
gelados denunciam seu invasor. Repelem a pele. Mas há um colchão quente para o
abraço. Não sei de onde vieram e espero não saber, depois, para onde vão.
Eu
espero que a ausência seja silenciosa e que me permita.
Depois.
Não
sei o que existe enquanto durmo. Acordo e me revelo e por fim descubro o que de
mim se escapa pelos metros quadrados que ocupo e percorro.
Sinto
falta de um relógio.
Nunca
sei, cá comigo, que horas são.


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