sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

conto/ pouco


pouco
José Ausente

Deve haver uma espécie de sentido ou o que virá depois?
Caio Fernando Abreu

Seria vinte e trinta e cinco este ponto da noite?
Não faz muito que o sol já foi; o ar ainda parece quente. Em horário de verão se percebe um pouco melhor das horas. Eu tento adivinhar; porque não há quem me conte.
As frutas podres que não comi. Estas manchas, estes marrons sobre suas peles e o cheiro entre doce e azedo do podre e da putrefação dominam as paredes mofadas pelo caos que produzi.
Nunca sozinho para tal feito.
Mas ultimamente, toda alteração no ambiente, cada aroma ou resto, farelo ou resquício – eu falo – é de minha autoria.
Eu escrevo pelos restos do que comi ou guardei a narrativa deste pedaço. Estão os registros de mim espalhados na poeira dos cantos, nos cabelos soltos pelo piso de madeira claro; na mancha do lençol bege.
Está cá a autoria destas horas que me desvestem.
Seguir as rachaduras que trincam a parede em ramos e galhadas, do teto sentido chão, é uma leitura de miúdas horas. Quase que ricas.
Não há instante por aqui que eu não presencio; inda que ausente. O corpo, mesmo parado, presente.
Que pensam os conhecidos meus? Poucos, então, acolheram notícias eu devo imaginar. Mas não me importo. Os pensamentos distantes de outrem não incomodam meu sono, tampouco saciam minha fome. Há algo sobre os outros que não entendo. E por não entender é que pereço.
Pereço de fé, de nota solfejada, de afago mal dado e de oportunidade negada.
Costumo permitir quando o peito ventila. Mas neste quando existe uma situação de culpa e doença e meu franco orgulho se curva, então permito. Não é sempre. Aliás, não faço ideia do que se trata o sempre. Quando dizem a respeito do sempre, minha consciência se reduz no limite da filosofia e me esmago. Quase que um tilt. Porém tudo bem. Não incomoda a mim, também, entender a longitude ou efemeridade que o sempre diz. Talvez ele, o sempre, como tantas outras coisas, sejam poucas para mim. E se me são poucas, talvez desprezo.
O pouco que eu digo não se liga à questão matemática do problema e sim a relevância que tal ponto me atinge. Há muito de pouco neste mundo; ouso: nesta vida. Então vivo de sobras porque é o que tenho.
Sobra de um móvel, sobra de uma calça, sobra de comida; sobra de mim. Porque já disse: há muito de meus restos sobre todo este cômodo.
Pouco abro a janela. Pouca também é a janela (e no sentido literal!) e só me serve como atalho para entradas e saída do ar. Ele que também leva de mim, mas sempre lhe pedi: que leve pouco porque ainda tenho o que preservar. Ainda gosto que o pouco de mim se mantenha em proximidades; mesmo que vulneráveis. Há um gosto pelo que sou, mas não muito pelo que sinto. E pelas verdades que evadem dos meus dedos, então me poupo. Poupo que o sal de mim tempere o mundo porque sei que sou de perigo. Há rumores de mim que o público não aceita. Portanto, qual prevenção melhor do que a calada? É porque me poupo que ainda existo, confirmo. Agora se por quanto e se por sempre eu já não sei.
Há desenhos de tinta nanquim pendurados perto de onde durmo. Em folhas rasgadas porque denuncio meu roubo. Preguei alguns para que me certifique de que tudo aquilo que sai de mim ainda me pertence mesmo que fora. Mesmo que escapados ou pregados na parede é tudo de mim. Existe no papel velho as formas que pude desprender; mas, por mais que as liberte não há alívio. Estas partes que se soltam e compõem uma insólita galeria não são livres de si. Ainda precisam de mim. Constantemente olho e presenteio com minha veneração porque não há companhia bem-vinda por aqui. Então fica para mim esta responsabilidade. Não sei se amanhã é sábado ou quarta-feira.
O que ouço nos ruídos intrusos não passa de frivolidades que a semana impõe. Não me interessa o barulho dos outros. Ao passo que o meu barulho, este eu preciso ficar atento. Porque os sons que ecoam de mim, são as verdades que os ouvidos negam. Cada toque, esbarro ou tilinto conta. Se entendesse de música, decifraria cada nota e, quem sabe, acorde. Meus barulhos são arpejos de solidão. Eu me confundo na música que meu corpo toca. Sorte de um espírito que não dança.
O meu espaço é gentil porque me acolhe, mas não abraça. Estas paredes e chãos gelados denunciam seu invasor. Repelem a pele. Mas há um colchão quente para o abraço. Não sei de onde vieram e espero não saber, depois, para onde vão.
Eu espero que a ausência seja silenciosa e que me permita.
Depois.  
Não sei o que existe enquanto durmo. Acordo e me revelo e por fim descubro o que de mim se escapa pelos metros quadrados que ocupo e percorro.
Sinto falta de um relógio.
Nunca sei, cá comigo, que horas são. 

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