dose I
ele sempre
acorda as quatro e trinta num pulo pra olhar o relógio e ter certeza de que
ainda tem mais uma hora e meia de sono, então vira-se, o corpo despenca sobre o
lençol sujo de porra e em mais alguns segundos volta a dormir tendo aqueles
sonhos esdrúxulos de mulheres mordendo os bicos dos seios, umas das outras,
usando saias de plásticos enquanto seu pau duro reage e molha a cueca barata e
cinza comprada junto a mais duas em lojas de departamentos, mas dorme e seus
membros marcam o colchão num repouso de Hércules.
ele sempre
acorda pesado as seis horas com saliva seca no canto da boca, tontura incomum
que o faz bambear e vez e outra bate aquele dedo pequenino do pé no canto da
cômoda fazendo surtir um caralho no início da matina mas é sorte dele que o
próximo vizinho mora a uns trinta metros porque poucos querem morar naquela
tapera de tijolo e humidade ilhado no mar de pedra. sempre de pau duro que vai
esfregando a glande com destreza e tem um prazer sonolento até chegar na pia do
banheiro onde tem uma torneira rosqueada duramente e que dá esforço para abrir
porque a borracha tá estragada e ele nem sequer sabe como se troca. então lava
o rosto na água gelada, tira a roupa e caga pelado vendo as veias que saltam
daqueles pés secos e de unhas trincadas. olha sua bosta com admiração e na
coragem do dia dá descarga e decide tomar banho. se esfrega com o resto de
sabonete grudado a outro resto de sabonete junto à bucha cheia de pelos das
costas, do peito e do saco mas ele não tem nojo porque é tudo daquele corpo que
queima na escaldante água que escapa do céu. bate uma e se enrola na toalha
desbotada, lembrança de um “ex” que nem sequer sabe de sua parada.
ele sempre se
troca correndo e pega o pacote de bolachas pra ir comendo na rua porque sai em
cima da hora e o dia não espera. aliás, a vida nunca espera. nem o ônibus que
ele que pega porque vive. e quem vive, atrasa.
dose II
Contei três ratos
na noite passada, ele dizia com aquele riso de escárnio. Você dormia e eu os vi
ainda com a vela acesa. Não sei o que tanto me importa, eu devia dizer, eu
devia responder. Mas sou tão tarda que me deixo ouvir estas histórias cínicas
de um velho sujo. Os dedo grossos e as unhas em beiradas pretas circundavam o
copo com café. Segunda-feira apareceu só um e parecia ser filhote. Eu cortava o
pão sovado, dividia o pedaço em dois e separava um pra ele. Deveríamos ter um
gato, Amaranta. Ele tem uns olhos de quem veleja. E estas rugas dos sóis
batidos. Eu não quero merda de gato nenhum, enfim disse, é mais um pra comer
nessa droga! Então ele se calou e tomou o café num gole. Rejeitou meu pão. Depois,
vivemos. Pela noite, eu acendo o toco de vela. Então de manhã, ele me vem. Contei
dois ratos na noite passada.
dose III
A viuvinha é uma
gorda safada na boca do povão. E quem disse que ela liga? Sai pela tarde toda emperiquitada,
leva cigarro na bolsa e pinta o cabelo todo dia quinze. Depois que o marido
morreu ela segurou o luto só uma semana e depois, dizem, virou cadeira de bar e
recebe visitinhas em casa nas quintas e sextas de noite. Seu nome roda na boca
do povo e é homenagens dos moleques que ficam doidos para comê-la e tomar um
velho-barreiro qualquer dia desses. As amigas do varal lhe viraram a cara só
porque se descobriu. Agora se reúnem com as bacias nas ancas debaixo da entrada
do bloco B para esconjurar a mulher que trocou as saias até o pé por calças
jeans. E bebe com a aposentadoria do marido, berram esbaforidas. Mas nos
segredos das madrugadas elas sonham com os homens que visitam a viuvinha e se
molham todas enganando os maridos que acham ser os bam-bam-bans daquele prazer
mas só trepam com elas de lado. A viuvinha enterrou as surras e as cuspidas na
cara bem como a mentira da boa esposa que ora. E as outras, ah, as outras;
estas se enganam.
dose IV
Tinha rasgado as
calças e aparecido de vestido, boneca e batom na escola. A meninada ficou louca
com o assunto e a professora ficou cega. Ele foi pro banheiro, na merenda, e
foi fila feita de moleque querendo passar a mão na sua bunda e ver se usava
calcinha. O filho do Miltão saiu gritando que era azul, era azul! O auê no
banheiro trouxe o inspetor velho de testa marcada que com cinta na mão
arrebentava estalos nos azulejos dispersando toda a trupe. O inspetor olhou a
figura, jogou-lhe umas calças e camisetas e mandou que arrancasse as chitas. O menino
obedeceu. Depois de pronto, só pôde perguntar:
― Tu vai levá
minha buneca?
E o velho teve o
menino roubado com os olhos em maré. Tomou a boneca encardida e careca e saiu
dando recado:
― Essa’qui é
feia. Na saída lhe dou’ma melhó.
Teve sorriso e
ninguém viu.
dose V
Um filho da puta
aquele lazarento. O garoto teve o maior trabalho de fazer quinhentos paus em
duas semanas e o viado do Marleyson não lhe vendeu a porra do 38. Correu gira
com duas dúzia de sacos de pó entre a Vila Curumim e a Varginha, dormiu na
belina velha perto do beco da onça e despistou três viaturas com o cu na mão.
Falou com o Dundi que iriam a mão livre mesmo. O Dundi levaria uma faca e já
era.
Pegariam o velho
tiozinho da ecosport no primeiro farol depois da saída do shopping. Dez e pouco,
a saída que dava para a alameda vitória era escura e o mais trouxa se fodia.
Valeu, falou.


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