terça-feira, 5 de julho de 2016

conto/ Criança como todas as outras


Era uma criança como todas as outras mas por conta de muito era visto como um adulto reduzido. Seu gênio e sua malícia convenciam as vistas grossas dos trabalhadores daquele ambiente a ter opinião como tal. Mas ele era criança como todas as outras.
Sua agonia se dava quando se via com alguém desconhecido a ter de lidar. Todo início de ano a sensação se repetia. Quem é ela, se perguntava naquele ano. Um novo laço a ser criado custa caro nas mãos dele. Nunca foi de muitas relações. Embora seu critério seja mínimo – faça-me gostar de você -, o feitio de tal proeza só era conseguido a duras penas. Ela quem nos dirá. A hérnia de disco, há muito adormecida, despertará naqueles dois mil e tantos após fracassar diante do enigma desta esfinge em peles de menino.
 A fama dele já corria os corredores e conselhos de classe. Os relatórios sobre si, infindáveis. Tão jovem e já velho conhecido dos conselheiros tutelares. Ela ouviu apenas o que lhe disseram. Mas ele: criança.
Quando o sinal bateu, as palpitações do peito faziam pressão aos ouvidos do menino. As suas sinapses produziam uma cisma que franzia sua testa numa feição de mau humor que apenas bons olhos a desmancharia. Quem quer que fosse pouco teria de seu amor, era sua inconsciente premissa. O coração judiado temia um novo desprezo, embora ele nunca confessasse. Poucos oferecem ternuras a um nome como o dele, tão conhecido. Ele pouco provou do afeto. Ele, um pequenino.
O comando da fila chamou a atenção de seus olhos. O fio de crianças se dirigiu às escadas regidas pela grande mulher de aparência robusta e de uma tentativa forçosa de simpatia (ela também tinha suas dores). Todos foram, ele ficou, perplexo no mistério que lhe reservaram. Os outros grupos de crianças passando. As mochilas novas, os penteados de sempre, as empolgações adultas, as expectativas infantis. E ele restou ali na sua constante solidão. Ao fim da última fila um salto lhe surge e corre para a sala três. Ali já fora seu lugar por dois anos. Os novos naquele território olham-no curiosos e surpresos. A mulher de vestido, então responsável, o aborda com o já conhecido acalanto. Oi, Sandro. E diz o que ele não quis escutar. Você não é mais desta sala. Já viu onde fica a sua? As lágrimas azedas de um choro atrasado tentaram um pranto, mas ele as conteve com sua prática de menino rebelde. Fez não com a cabeça. Mirou as faces dos outros ali, cada um se ajeitando como podiam, e sentiu um ciúme com gosto de sangue. Devolvam-na pra mim, quis pensar; mas seu latim era tão defasado que os pronomes oblíquos sequer surgiam em seu cognitivo. Silábico-alfabético. Quis sentar-se em seu velho lugar, primeira mesa da segunda fileira partindo da parede. Oito palmos da mesa da professora. Oito palmos! Madeira pintada de cinza. Sorrisos nos acertos, broncas nos erros. Abraços ao meio-dia. Na fila, a mão dada com ela para não fugir (perto de mim, ouvia); horas gastas de conversas e atenções; a certeza de que era olhado mesmo quando devia ser odiado.  No entanto, nada daquilo lhe pertencia mais como outrora...

Levado pelo inspetor, uma cara nova marcada por espinhas mal espremidas e óculos de lente fusion, descobriu seu novo posto. Uma nova porta azul, porém com tom mais frio que a outra, a seus olhos. A mulher o cumprimenta, ele entra com receio disfarçado de valentia. O inspetor num sorriso amarelo deseja boa sorte à senhora e encosta a porta. Ela então deixa o menino se acomodar; ele: arisco como um gato senta-se ao fundo da sala. Então observa os companheiros, há muitos conhecidos mas poucos respondem ao seu olhar. Invisível. Ele é um fantasma infante. Mas não por muito tempo.
Porque se ela não o ver, muito em breve ele se levantará toda hora e caçará assunto com alguém. Se não o tiver, ele sairá da sala sem qualquer satisfação e mostrará quão hábil é nas artes de aprontar. Quando voltar, se ocupará de desenhos de carros geométricos e aviões blindados dobrados em papel reciclável. Incomodará as meninas puxando seus cabelos, ameaçando dar-lhe socos e roubando alguns beijos. Se ela não o descobrir, ele conseguirá ser o mais notável garoto daquela escola visitando diretores e coordenadores; fazendo sua mãe falar dele a cada semana até se cansar de tantos telefonemas e trocar o chip do celular. Se os projetos não o despertar, ele perturbará tanto, tanto, tanto que fará com que acreditem que ele não é uma criança. Fará com que criem uma mentira sobre o sujeito de si mesmo. Fará com que queiram seus punhos apertados por algemas porque não lhe permitirão a infância. Será insuportável. O pior dos piores. Um caso de abandono porque ninguém se aproxima dele de graça. Ninguém ganha suas estrelas com poucos esforços. Ele devorará quem se negar a decifrá-lo e só permite sabe-lo quem o ver criança...
Ela só o terá se o ver criança. Como todas as outras.

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