Era uma criança como todas as outras mas por
conta de muito era visto como um adulto reduzido. Seu gênio e sua malícia
convenciam as vistas grossas dos trabalhadores daquele ambiente a ter opinião
como tal. Mas ele era criança como todas as outras.
Sua agonia se dava quando se via com alguém desconhecido
a ter de lidar. Todo início de ano a sensação se repetia. Quem é ela, se
perguntava naquele ano. Um novo laço a ser criado custa caro nas mãos dele.
Nunca foi de muitas relações. Embora seu critério seja mínimo – faça-me gostar
de você -, o feitio de tal proeza só era conseguido a duras penas. Ela quem nos
dirá. A hérnia de disco, há muito adormecida, despertará naqueles dois mil e
tantos após fracassar diante do enigma desta esfinge em peles de menino.
A fama
dele já corria os corredores e conselhos de classe. Os relatórios sobre si,
infindáveis. Tão jovem e já velho conhecido dos conselheiros tutelares. Ela
ouviu apenas o que lhe disseram. Mas ele: criança.
Quando o sinal bateu, as palpitações do peito
faziam pressão aos ouvidos do menino. As suas sinapses produziam uma cisma que
franzia sua testa numa feição de mau humor que apenas bons olhos a
desmancharia. Quem quer que fosse pouco teria de seu amor, era sua inconsciente
premissa. O coração judiado temia um novo desprezo, embora ele nunca confessasse.
Poucos oferecem ternuras a um nome como o dele, tão conhecido. Ele pouco provou
do afeto. Ele, um pequenino.
O comando da fila chamou a atenção de seus
olhos. O fio de crianças se dirigiu às escadas regidas pela grande mulher de
aparência robusta e de uma tentativa forçosa de simpatia (ela também tinha suas
dores). Todos foram, ele ficou, perplexo no mistério que lhe reservaram. Os
outros grupos de crianças passando. As mochilas novas, os penteados de sempre,
as empolgações adultas, as expectativas infantis. E ele restou ali na sua
constante solidão. Ao fim da última fila um salto lhe surge e corre para a sala
três. Ali já fora seu lugar por dois anos. Os novos naquele território olham-no
curiosos e surpresos. A mulher de vestido, então responsável, o aborda com o já
conhecido acalanto. Oi, Sandro. E diz o que ele não quis escutar. Você não é
mais desta sala. Já viu onde fica a sua? As lágrimas azedas de um choro
atrasado tentaram um pranto, mas ele as conteve com sua prática de menino
rebelde. Fez não com a cabeça. Mirou as faces dos outros ali, cada um se
ajeitando como podiam, e sentiu um ciúme com gosto de sangue. Devolvam-na pra
mim, quis pensar; mas seu latim era tão defasado que os pronomes oblíquos
sequer surgiam em seu cognitivo. Silábico-alfabético. Quis sentar-se em seu
velho lugar, primeira mesa da segunda fileira partindo da parede. Oito palmos
da mesa da professora. Oito palmos! Madeira pintada de cinza. Sorrisos nos
acertos, broncas nos erros. Abraços ao meio-dia. Na fila, a mão dada com ela
para não fugir (perto de mim, ouvia); horas gastas de conversas e atenções; a
certeza de que era olhado mesmo quando devia ser odiado. No entanto, nada daquilo lhe pertencia mais
como outrora...
Levado pelo inspetor, uma cara nova marcada por
espinhas mal espremidas e óculos de lente fusion, descobriu seu novo posto. Uma
nova porta azul, porém com tom mais frio que a outra, a seus olhos. A mulher o
cumprimenta, ele entra com receio disfarçado de valentia. O inspetor num
sorriso amarelo deseja boa sorte à senhora e encosta a porta. Ela então deixa o
menino se acomodar; ele: arisco como um gato senta-se ao fundo da sala. Então
observa os companheiros, há muitos conhecidos mas poucos respondem ao seu
olhar. Invisível. Ele é um fantasma infante. Mas não por muito tempo.
Porque se ela não o ver, muito em breve ele se
levantará toda hora e caçará assunto com alguém. Se não o tiver, ele sairá da
sala sem qualquer satisfação e mostrará quão hábil é nas artes de aprontar.
Quando voltar, se ocupará de desenhos de carros geométricos e aviões blindados
dobrados em papel reciclável. Incomodará as meninas puxando seus cabelos,
ameaçando dar-lhe socos e roubando alguns beijos. Se ela não o descobrir, ele
conseguirá ser o mais notável garoto daquela escola visitando diretores e
coordenadores; fazendo sua mãe falar dele a cada semana até se cansar de tantos
telefonemas e trocar o chip do celular. Se os projetos não o despertar, ele
perturbará tanto, tanto, tanto que fará com que acreditem que ele não é uma
criança. Fará com que criem uma mentira sobre o sujeito de si mesmo. Fará com
que queiram seus punhos apertados por algemas porque não lhe permitirão a
infância. Será insuportável. O pior dos piores. Um caso de abandono porque
ninguém se aproxima dele de graça. Ninguém ganha suas estrelas com poucos
esforços. Ele devorará quem se negar a decifrá-lo e só permite sabe-lo quem o
ver criança...
Ela só o terá se o ver criança. Como todas as
outras.


Nenhum comentário:
Postar um comentário