terça-feira, 5 de julho de 2016

conto/ madrugadas pobres e areia quente



E ia descendo assim sem nenhum beijinho,  nem ao menos no rosto. Catou o dinheiro e enfiou na bolsa; muito obrigado e boa viagem: um sorriso humilde de felicidade guardada. Desceu do caminhão perto do quilômetro vinte e sete da Anchieta (pra dar tempo de filar uma carona e até mais um michêzinho, nem que fosse de dez reais). Você tá com cara de quem não volta mais, ele disse. Se tudo der certo não. Por quê? O vento, parecia que não, cortava o pescoço lá fora. Arrumei um trabalho. Chega de programa. Mas você é tão bom nisso e depois de tanto vai largar? E a gente, comé que fica? Ah, e riu, de vez em quando eu apareço então. Era bom se sentir querido; mesmo por ele, o peludo que cheira axe, o motorista do LT1178 vermelho-velho que usa guia de exú. Serão saudades das madrugadas pobres. Eu apareço, pode deixar... Pode deixar.

Então esperou que o caminhão passasse deixando a brisa pesada de sua fumaça de diesel queimado. O vento que se fez desfez seu penteado trazendo a tona cinco dedos de raíz e o resto de uma progressiva mal feita em dezembro do ano passado quando rolou uns trocos a mais. Observando os carros que iam e vinham, sentidos norte e sul, Litoral-São Paulo, nenhum dos transeuntes talvez tivesse em seus olhos os vestígios da sorte dele. Procurou fechar os dois botões do cardigã próximos ao peito para conter os catorze graus da rodovia. Buzinas e faróis altos. O mundo tenta debochar dos travestis. Sem perspectiva de carona foi seguindo a pé até a passarela para chegar do outro lado. Breu total e as trevas dos marginais. Enquanto caminhava de braços cruzados e segurando a bolsinha fazia os cálculos de um novo orçamento ainda virtual como planos de uma nova era. Subiu as escadas, cortou a rodovia, desceu do outro lado e mal reparou no cara do ponto que o olhava e fazia sinais pra um oral rapidinho ali sem muita enrolação, mas também, sem remuneração. Continuou se perseguindo pelo caminho estreito na trilha artificial causada por botas operárias até as beiras da represa. Nenhuma carona então. Olhou o espelho d’água que era o reservatório bem como os pontos iluminados no reflexo dele que se confundiam entre luzes de postes e estrelas. O mundo pode ser bom, sentia. Em um mês daria pra mandar rebocar pelo menos a cozinha e com um esforço colocar um forrinho de pvc nela, assim tampa as ripas de um telhado velho. Mais adiante e chegava na sala; tapetes de crochê, um jogo de banheiro e passadeiras na cozinha. Seria devagar porque ainda há o que economizar. Ganhar bem é uma proeza, concluía. Não dá pra sair gastando assim ganhando mil reais, contou à Dirce outro dia. Seus planos também incluíam uma colcha nova e uma noite no Flutuante, ainda que sozinho. Se a Dirce estivesse boa da perna ia com ela, ele fazia questão de pagar. Mas se não desse ia sozinho. Tem o Japão também, mas ele teria vergonha. O caso com o Japão é só na noite, beira de pista, Motel Estoril e fio terra. Mesmo ele sendo tão simpático e já tendo o cumprimentado no mercado junto da mulher; um jantar no Flutuante era demais. Que sonhadora, pensava. Ao meio da travessia da represa e muitas ideias já se debandaram. Como a cabeça da gente muda, falou a si mesmo. Em três segundos e já previu a saudade que terá das longas noites na Anchieta pra ganhar seu pão. Nas buzinadas e jogadas de carro para acertá-lo. Nos mendigos safados que se masturbavam embaixo da passarela para (tentar) sedução. Nos clientes, já amigos hoje, e nas boas trocas de conversa. Mas será bom sair dessa vida porque desde ano passado que o mar não tá pra peixe. Com a crise, os caminhoneiros ganham menos porque cortaram os vales de quase dois paus; o que mantinha muito o fluxo de dinheiro nos programas. De agosto passado pra cá houve muita negociação porque os caras queriam o serviço completo pelo preço de boquete. E as minhas contas quem paga? Vida difícil pra todo mundo e ele entendia. Ele entendia que não tava fácil para seus clientes que mantinham suas famílias nas cidades mais distantes comendo pó com arroz e precisavam se satisfazer nas estradas. É um investimento duro essa infidelidade matrimonial gerada pela distância do trabalho. Ele sabia disso e não se culpava porque ele trabalhava e não mantinha afetos com os trabalhadores. É claro que um e outro sempre voltavam; porque o tinham esperando. Principalmente aqueles com as cargas vazias porque, se bobeasse, rolava até um passeio pela cidade e ele, coitado, que nunca dirigiu, se pegava encantado em andar pela cidade de caminhão e de carro. Era uma felicidade de menino. Mas a sorte de todo mundo muda, graças a deus, e a partir de então as ciladas e os prazeres ficariam no passado porque ganharia mil reais para cuidar dos cachorros da chácara alugada pelos homens da sabesp. Uma responsabilidade e tanto porque dona Jaci ofereceu a oportunidade a ele e mais ninguém. Muito embora o que ele queria fosse mesmo ficar com a faxina e lavar as roupas dos homens - porque na certa se ganhava mais. Mas não deu porque a dona Jaci lhe disse que uma pessoa como ele não seria interessante lá no meio da homarada. Querendo ou não os peões estavam longe de casa, longe das esposas então poderiam facilmente cantá-lo e oferecer dinheiro para algumas trepadas e brincadeiras o que ficaria muito chato e dona Jaci não gosta de misturar essas coisas. Arranjou um outro moço que faz estes serviços e disse a ele que o rapaz era homem mesmo. Ele era mulher e alimentar os cães já era bom. Quem sabe depois de um tempo dona Jaci não perceberia que poderia confiar nele e lhe desse as funções da casa? Quem sabe? Foi pensando e supondo que atravessou aquele braço da Billings num tanto. Viu a prainha deserta e decidiu tocar a areia com seus pés. Aquela noite tinha um charme singular. O sereno cheirava a boa-nova. Em seus quarenta e sete anos experimentaria algum tipo de reconhecimento diferente dos elogios ao seu ânus e da maneira como chupa. Colocando a quantidade certa de ração, água limpa e deixando o quintal dos cachorros limpinho ele teria a atenção e algum reconhecimento. Quem diria então. Talvez a Dirce ficasse orgulhosa; Cosme, seu irmão, voltasse a falar consigo e deixasse-o assistir TV com o Juninho. Assim quem sabe o Pedrão, o Cardoso e o Bigode o cumprimentassem quando ele fosse tomar um trago no Pulo da Onça. Quem sabe comesse uma costela no Lírios; tomasse um café na Lurdes; comprasse um perfume na Favorita; uma consulta com a Sete Saias  e não precisasse... não precisasse mais subir em scanias, mercedes e volkswagens para poder comprar pão e miojo no outro dia. Não precisasse mais esperar a noite para ser gente e ter ocupação. Não precisasse trocar prazeres por trocados.

A areia da prainha estava curiosamente quente e os grãos entre seus dedos diziam a Damião que o futuro era de presente.

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