Estava
a linha trinta lotada naquele fim de dia em que os trabalhadores suados,
cansados, famintos e quietos apenas almejavam os tijolos de suas casas frias. O
motorista, um coitado, já na antepenúltima viagem da sexta deslizava pela
Anchieta na pressa de quem cansa pelo suado chão brasileiro. Uma mão no
volante, outra no guidão porque na crise, dezenas de cobradores zelosos – pais
e mães de famílias, também ex-atendentes de mercado convém dizer – foram
demitidos pelas honrarias de quem dizia não pagar o pato. Mas vamos lá.
Fim
da Anchieta, a lataria ganhas as curvas sacudindo o povão que levavam bofetadas
das sacolas de mercado e das bolsas de couro barato suspensas nos ombros de
quem não pediu – ou sequer teve oportunidade – para deixar alguém sentado
carregando. Em velocidade alta o carro sacudia o corpo maestroso de Dona Zunir
que fula da vida lança:
―
Êta, seo motorista! Cê tá levando gente!
E
o Marcelo, mecânico, espremido pela barriga do cinquentão beberrão também
ataca:
―
Isso não é caminhão de carga não, meu fí!...
―
Tem mulher grávida no busão! – ouviu-se e não dá pra saber de quem.
Então
o povo ia apertando os canos de ferro emborrachados, com as alças das sacolas
cortando os dedos, apoiando-se um nos outros na xingação. O motorista ainda que
tentava:
―
Minha gente, eu tô no limite de velocidade!
―
Desse jeito o senhor vai passar até da balsa! – Rosemira, a cabelereira,
gritou.
E
nas freadas a inércia era uma maldição na humanidade. Enquanto todo o auê se
desenrolava pelas curvas do distrito, Inácio ainda que tentava ler. Morangos
mofados! Mas quem ali se importava com o Caio? Doída privação de cultura em
tempos de tevê monoglobo. Rachel, esta que se mantém de pé em uma blusinha
florida próxima a Inácio ouvia Strokes. Havia um colar com pedra sobre seu
busto. Entre curvas e linhas ela tentava roubar palavras do livro de Inácio que
se mantinha concentrado apertando seus olhos por trás das lentes de quatro
graus. Perto da Vila Pelé tivemos a surpresa: o ônibus para bruscamente dando
razões para uma vaia descomunal.
―
Mais um pouco e você me leva pra Deus, motorista! – é Dona Zunir de novo.
Toda
a multidão dos passageiros que não desceram no Areião e nem no terminal busca
as frestas entre braços lisos e gordos, magros e peludos para ver o que se
sucede. Rachel continua cantando baixinho o refrão que conhecia, Inácio baixa
um pouco o livro e espia pela janela em busca de explicação.
―
Fez isso e ainda matou o cachorro!
―
Coitadinho, Jesus Nosso Senhor!...
Aproveitando
os esbarrões Rachel deixa que sua barriga e coxas encostem-se a Inácio. O que o
menino percebe? Ela tenta flertar com teus olhos, busca no rapaz o encontro do
poema em suas pupilas enquanto houve os acordes românticos de uma guitarra
americana.
―
E agora, seu motorista? Correu feito um louco, olha no que deu!
―
Se não fosse o cachorro, pessoal, seríamos nós!
Rachel
tira os fones de ouvido então e arrisca a pergunta que Inácio diz saber não
responder. Ela oferece um sorrisinho, ele – desatento – fica sem perceber. A
moça coloca os cabelos pra frente que cocegueiam o pescoço pálido de Inácio.
Ele só coça, roda seus olhos e tenta voltar à leitura.
―
Toca a viagem, motorista, o crime está feito!
E
o zum-zum-zum é tanto que o itinerário continua Rio Acima adentro. Bem mais
devagar até o ponto de Rachel que desce deixando escapar sua presilha como
pretexto para Inácio. Isto que ela esperou até dobrar sua esquina, enquanto
Inácio seguiu sem terminar seu livro. Ele desceu três pontos na frente deixando
o trinta no vão livre das suas angústias.
Dessa
história, o povo só lembra do cachorro. Mal souberam, qualquer um deles, da
piscadela de romance que o ônibus também levou.
Fazer
o quê? É sempre assim que terminam.


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