terça-feira, 31 de janeiro de 2017

conto/ romance no 30


Estava a linha trinta lotada naquele fim de dia em que os trabalhadores suados, cansados, famintos e quietos apenas almejavam os tijolos de suas casas frias. O motorista, um coitado, já na antepenúltima viagem da sexta deslizava pela Anchieta na pressa de quem cansa pelo suado chão brasileiro. Uma mão no volante, outra no guidão porque na crise, dezenas de cobradores zelosos – pais e mães de famílias, também ex-atendentes de mercado convém dizer – foram demitidos pelas honrarias de quem dizia não pagar o pato. Mas vamos lá.
Fim da Anchieta, a lataria ganhas as curvas sacudindo o povão que levavam bofetadas das sacolas de mercado e das bolsas de couro barato suspensas nos ombros de quem não pediu – ou sequer teve oportunidade – para deixar alguém sentado carregando. Em velocidade alta o carro sacudia o corpo maestroso de Dona Zunir que fula da vida lança:
― Êta, seo motorista! Cê tá levando gente!
E o Marcelo, mecânico, espremido pela barriga do cinquentão beberrão também ataca:
― Isso não é caminhão de carga não, meu fí!...
― Tem mulher grávida no busão! – ouviu-se e não dá pra saber de quem.
Então o povo ia apertando os canos de ferro emborrachados, com as alças das sacolas cortando os dedos, apoiando-se um nos outros na xingação. O motorista ainda que tentava:
― Minha gente, eu tô no limite de velocidade!
― Desse jeito o senhor vai passar até da balsa! – Rosemira, a cabelereira, gritou.
E nas freadas a inércia era uma maldição na humanidade. Enquanto todo o auê se desenrolava pelas curvas do distrito, Inácio ainda que tentava ler. Morangos mofados! Mas quem ali se importava com o Caio? Doída privação de cultura em tempos de tevê monoglobo. Rachel, esta que se mantém de pé em uma blusinha florida próxima a Inácio ouvia Strokes. Havia um colar com pedra sobre seu busto. Entre curvas e linhas ela tentava roubar palavras do livro de Inácio que se mantinha concentrado apertando seus olhos por trás das lentes de quatro graus. Perto da Vila Pelé tivemos a surpresa: o ônibus para bruscamente dando razões para uma vaia descomunal.
― Mais um pouco e você me leva pra Deus, motorista! – é Dona Zunir de novo.
Toda a multidão dos passageiros que não desceram no Areião e nem no terminal busca as frestas entre braços lisos e gordos, magros e peludos para ver o que se sucede. Rachel continua cantando baixinho o refrão que conhecia, Inácio baixa um pouco o livro e espia pela janela em busca de explicação.
― Fez isso e ainda matou o cachorro!
― Coitadinho, Jesus Nosso Senhor!...
Aproveitando os esbarrões Rachel deixa que sua barriga e coxas encostem-se a Inácio. O que o menino percebe? Ela tenta flertar com teus olhos, busca no rapaz o encontro do poema em suas pupilas enquanto houve os acordes românticos de uma guitarra americana.
― E agora, seu motorista? Correu feito um louco, olha no que deu!
― Se não fosse o cachorro, pessoal, seríamos nós!
Rachel tira os fones de ouvido então e arrisca a pergunta que Inácio diz saber não responder. Ela oferece um sorrisinho, ele – desatento – fica sem perceber. A moça coloca os cabelos pra frente que cocegueiam o pescoço pálido de Inácio. Ele só coça, roda seus olhos e tenta voltar à leitura.
― Toca a viagem, motorista, o crime está feito!
E o zum-zum-zum é tanto que o itinerário continua Rio Acima adentro. Bem mais devagar até o ponto de Rachel que desce deixando escapar sua presilha como pretexto para Inácio. Isto que ela esperou até dobrar sua esquina, enquanto Inácio seguiu sem terminar seu livro. Ele desceu três pontos na frente deixando o trinta no vão livre das suas angústias.
Dessa história, o povo só lembra do cachorro. Mal souberam, qualquer um deles, da piscadela de romance que o ônibus também levou.

Fazer o quê? É sempre assim que terminam.

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