dose I
caiu na rotary a
mochila deturpada para a revelação da intensidade pouco interessada. rolou pelo
asfalto frio das noves e quarenta o caderno sem pautas – a que estas palavras
pertenceriam -, o nelson rodrigues de edição pocket e o consolo fálico – troféu
da insolitude para a satisfação daquele então. a sombrinha preta e o huxley
também foram, mas a esta altura já sem importância para os demais porque o
rapaz da mochila sangra pela testa que se dilui em poça para que o trânsito
possa parar. só queriam o celular.
dose II
o menininho
apareceu com um gatinho por baixo da camiseta sustentando-o na barriga pelas
mãos. o bichano se requebrava entre as mordiscadas, arranhaduras e miados para
se ver com liberdade. menininho saltitou até findarem as vielas que traziam seu
barraco. lá dentro revelou com o entusiasmo dos anjos a sorte que lhe teve.
― quem te deu
isso, moleque? – a mãe esbravejou.
― ele tava
sozinho no campo e me chamou. trouxe pra dar leite.
― vá a merda! –
voaram panelas na caição de tempas.
só teve, então,
menininho – quase meia-noite – soltando o gatinho no lixão. chorou duas semanas
em segredo.
dose III
Patrik e
Jeremias, o Jê, costumavam comê-la de quatro na mesa de sinuca depois que
fechavam o bar. Enquanto ela se trocava no banheiro limpo, eles tiravam no cara
e coroa quem ia na boca e qual ficava na boceta. O problema foi que naquela
noite, Jeremias, o Jê, tinha fechado o caixa e levado todo o dinheiro do troco
para o Velho Nerso – que na quinta depositaria tudo no banco. O rolo se deu
porque eles só usavam moeda do bar para jogar e Patrik não queria aceitar o
jogo com moeda pessoal. Uma porque ele era de touro com ascendente em virgem e
outra porque queria manter a posição da noite anterior quando ficou com o rabo.
Jeremias, o Jê, não era de implicar mas naquele dia implicou. Então que
trocassem as posições para ficar justo, um revezamento, ele propôs. E Patrik
nada de concordar. Ficaram nesse bate-boca até que ela saiu do banheiro.
Vestida e com bolsa no ombro, celular na mão.
― Hoje vocês
ficam na punheta. Meu marido chegou.
dose IV
Ana Morte já
cansada das perguntinhas e trocadilhos com seu sobrenome quase fez jus ao
sentido literal que o substantivo lhe traz. Dissemos quase porque a intenção
não foi bem cumprida – graças à chuvarada de dezembro. Ana Morte se mantém
viva.
Aconteceu que,
farta após perder o último namorado, decidiu estampar a morte de seu nome em
sua lápide apenas. Então encheu a banheira e ligaria o secador de cabelos. Sua intenção
era morrer num choque só. Viu isso em filme. No entanto, Ana Morte sequer
consultou a previsão do tempo pelo jornal ou ligou para o disque-clima.
Malé-malé olhou o céu pela janela. O tempo fechou e o céu rachou-se em
trovoadas. Faltou energia elétrica para o suicídio de Ana Morte que nem de se
matar foi capaz.
dose V
ele judiava das
galinhas segurando-as pelo pescoço e arrancando penas e depois enfiando goela a
baixo pelos bicos das coitadas. Quando a crueldade não bastava, ele pegava os filhotes
felinos amarrando suas patas com linha de cerol em frente dos potes com
sardinha e arroz. Fazia arapuca de açúcar para atrair formigos e então,
arrancar uma a uma metade de suas perinhas. Se surgissem içás e mosquitos:
estes perdiam as asas e eram condenados a andar nesta terra de azar.
A vizinha que
tudo via mexericou à mãe dele e sugeriu até tratamento com médico na cidade. Ele
levou foi uma surra e não chorava de birra, raiva e orgulho. Criança tem disso
também.
Anos mais tarde, ele judiava da vizinha que
queria lamber o seu pau quente. Ele só deixava-a espiar pela vidraça velha do
quarto dos fundos sem nunca poder tocar.


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