segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

microcontos/ mais cinco doses de prosa


dose I

caiu na rotary a mochila deturpada para a revelação da intensidade pouco interessada. rolou pelo asfalto frio das noves e quarenta o caderno sem pautas – a que estas palavras pertenceriam -, o nelson rodrigues de edição pocket e o consolo fálico – troféu da insolitude para a satisfação daquele então. a sombrinha preta e o huxley também foram, mas a esta altura já sem importância para os demais porque o rapaz da mochila sangra pela testa que se dilui em poça para que o trânsito possa parar. só queriam o celular.


dose II

o menininho apareceu com um gatinho por baixo da camiseta sustentando-o na barriga pelas mãos. o bichano se requebrava entre as mordiscadas, arranhaduras e miados para se ver com liberdade. menininho saltitou até findarem as vielas que traziam seu barraco. lá dentro revelou com o entusiasmo dos anjos a sorte que lhe teve.
― quem te deu isso, moleque? – a mãe esbravejou.
― ele tava sozinho no campo e me chamou. trouxe pra dar leite.
― vá a merda! – voaram panelas na caição de tempas.
só teve, então, menininho – quase meia-noite – soltando o gatinho no lixão. chorou duas semanas em segredo.

dose III

Patrik e Jeremias, o Jê, costumavam comê-la de quatro na mesa de sinuca depois que fechavam o bar. Enquanto ela se trocava no banheiro limpo, eles tiravam no cara e coroa quem ia na boca e qual ficava na boceta. O problema foi que naquela noite, Jeremias, o Jê, tinha fechado o caixa e levado todo o dinheiro do troco para o Velho Nerso – que na quinta depositaria tudo no banco. O rolo se deu porque eles só usavam moeda do bar para jogar e Patrik não queria aceitar o jogo com moeda pessoal. Uma porque ele era de touro com ascendente em virgem e outra porque queria manter a posição da noite anterior quando ficou com o rabo. Jeremias, o Jê, não era de implicar mas naquele dia implicou. Então que trocassem as posições para ficar justo, um revezamento, ele propôs. E Patrik nada de concordar. Ficaram nesse bate-boca até que ela saiu do banheiro. Vestida e com bolsa no ombro, celular na mão.
― Hoje vocês ficam na punheta. Meu marido chegou.

dose IV

Ana Morte já cansada das perguntinhas e trocadilhos com seu sobrenome quase fez jus ao sentido literal que o substantivo lhe traz. Dissemos quase porque a intenção não foi bem cumprida – graças à chuvarada de dezembro. Ana Morte se mantém viva.
Aconteceu que, farta após perder o último namorado, decidiu estampar a morte de seu nome em sua lápide apenas. Então encheu a banheira e ligaria o secador de cabelos. Sua intenção era morrer num choque só. Viu isso em filme. No entanto, Ana Morte sequer consultou a previsão do tempo pelo jornal ou ligou para o disque-clima. Malé-malé olhou o céu pela janela. O tempo fechou e o céu rachou-se em trovoadas. Faltou energia elétrica para o suicídio de Ana Morte que nem de se matar foi capaz.

dose V

ele judiava das galinhas segurando-as pelo pescoço e arrancando penas e depois enfiando goela a baixo pelos bicos das coitadas. Quando a crueldade não bastava, ele pegava os filhotes felinos amarrando suas patas com linha de cerol em frente dos potes com sardinha e arroz. Fazia arapuca de açúcar para atrair formigos e então, arrancar uma a uma metade de suas perinhas. Se surgissem içás e mosquitos: estes perdiam as asas e eram condenados a andar nesta terra de azar.
A vizinha que tudo via mexericou à mãe dele e sugeriu até tratamento com médico na cidade. Ele levou foi uma surra e não chorava de birra, raiva e orgulho. Criança tem disso também.
Anos mais tarde, ele judiava da vizinha que queria lamber o seu pau quente. Ele só deixava-a espiar pela vidraça velha do quarto dos fundos sem nunca poder tocar.

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