segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

conto/ dança sóbria (em dó sustenido para corpos desistidos)


dança sóbria (em dó sustenido para corpos desistidos)
José Ausente

And I'm givin' it my all
but I'm not the guy you're takin' home
[...] I keep dancin' on my own
Robyn

é assim que ele parte: porque vai com alguém longe de mim no banco do carona e este deveria ser, por verdade, o fim.
assim acaba?
meus olhos não lêem a possibilidade do findar que é o momento. o alfabeto dissipa de mim e eu não consigo a leitura para a palavra que me golpeia.
é com esta pessoa que ele acaba; é com este corpo pouco vasculhado que ele confia e me deixa, sóbrio e acordado aqui nesta esquina. eu resto e não retornaria ao clube porque não há razão e nem meu espírito palpita diante da cinza que agora sou.
ele partiria, a esta hora já teria ido.
não comigo.

*

visitei o clube, persegui os rastros que um fake de internet consegue encontrar. nossos amigos em comum ajudaram. mesmo todas as outras gays dizendo que era loucura e eu devia parar. somos loucas; eu a maior delas.
não sou de desistir do impasse mas a sede do ver, a abstinência do saber e a adicção que se toma com a vingança levaram até o clube.
sábado de noite. fevereiro. peixoto gomide.
por que não?
todo mundo junto e o corpo desistido que é o meu na presença-ausência para a noite em questão.
eu fui até lá com meus últimos dinheiros: celular sem bateria e um trocado para voltar de ônibus.
fabio de carro; ar condicionado ligado. devia tocar monkeys enquanto dirigia. ele curtiu o cd que eu comprei pra ele. mas agora ele ouve last nite e não lembra de nada.
resta eu, aqui, parado, solidificado.
sóbrio.
não bebi um gole naquela porra; aguentei a noite seco.
recusei o beck de um menino na fila.
não peguei copo abandonado no balcão.
havia um feeling de necessidade pelo meu sangue.
heroína dos sozinhos.
um corpo – o meu – deixado.
dancei a noite toda ao lado das caixas de som; me deixei ser esbarrado pelas bichas bêbadas, pelas sapas de regatas; pelas meninas curiosas.
senti a música morrer.
nenhum gole; não haveria hálito e nem halls para compensar o desgosto.
dancei sozinho.
ele deve ter chegado depois das duas; preferia encher a cara em algum boteco na baixa augusta ou na vila antes. só depois costumava topar a balada. não se importava se o lugar era barato. não sei se era por respeito a minha condição.
disse não para algumas cantadas de generosidade que o álcool possibilita. em outras vezes eu aceitaria, mas,
aquele não era o tempo.
há noites que me visto para alguém, não para o espelho.
ele deve ter usado seu jeans skinny, o new balance novo, camiseta sem mangas long-shirt. barba rala? sim. deu pra ver.
depois da noite toda, confirmei.
rolou todo o pop que curtíamos juntos, o eletro e o lighting que destacavam seus óculos escuros. pouco zoei. dancei sóbrio.
então pelas quatro resolvi sair porque julguei não me surpreender mais.
paguei a comanda seca no cartão. assunto pro mês que vem. depois adivinho como vou pagar.
haviam alguns gatos pingados na rua. gente chapada, rachando de bêbada.
eu, sóbrio.
andei rumando o posto, desceria a augusta até o terminal bandeira.
eu na esquina. ele encostado no carro do outro lado.
beijava uma garota.
uma garota.
meu corpo desistido, o olho ardeu.
estou na esquina assistindo ele beijar ela; o corpo que o quer.
eu desistido.
não será eu a quem ele deixará em casa nesta noite.
voltei para o clube.
continuei dançando, sozinho mesmo.
e sóbrio enquanto a noite morre e ele leva, agora, ela.




(...)

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