dança
sóbria (em dó sustenido para corpos desistidos)
José Ausente
And I'm givin' it my all
but I'm not the guy you're takin' home
[...] I keep dancin' on my own
Robyn
é assim
que ele parte: porque vai com alguém longe de mim no banco do carona e este
deveria ser, por verdade, o fim.
assim
acaba?
meus
olhos não lêem a possibilidade do findar que é o momento. o alfabeto dissipa de
mim e eu não consigo a leitura para a palavra que me golpeia.
é com
esta pessoa que ele acaba; é com este corpo pouco vasculhado que ele confia e
me deixa, sóbrio e acordado aqui nesta esquina. eu resto e não retornaria ao
clube porque não há razão e nem meu espírito palpita diante da cinza que agora
sou.
ele
partiria, a esta hora já teria ido.
não
comigo.
*
visitei
o clube, persegui os rastros que um fake de internet consegue encontrar. nossos
amigos em comum ajudaram. mesmo todas as outras gays dizendo que era loucura e
eu devia parar. somos loucas; eu a maior delas.
não sou
de desistir do impasse mas a sede do ver, a abstinência do saber e a adicção
que se toma com a vingança levaram até o clube.
sábado
de noite. fevereiro. peixoto gomide.
por que
não?
todo
mundo junto e o corpo desistido que é o meu na presença-ausência para a noite
em questão.
eu fui
até lá com meus últimos dinheiros: celular sem bateria e um trocado para voltar
de ônibus.
fabio
de carro; ar condicionado ligado. devia tocar monkeys enquanto dirigia. ele
curtiu o cd que eu comprei pra ele. mas agora ele ouve last nite e não lembra
de nada.
resta
eu, aqui, parado, solidificado.
sóbrio.
não
bebi um gole naquela porra; aguentei a noite seco.
recusei
o beck de um menino na fila.
não
peguei copo abandonado no balcão.
havia
um feeling de necessidade pelo meu sangue.
heroína
dos sozinhos.
um
corpo – o meu – deixado.
dancei
a noite toda ao lado das caixas de som; me deixei ser esbarrado pelas bichas
bêbadas, pelas sapas de regatas; pelas meninas curiosas.
senti a
música morrer.
nenhum
gole; não haveria hálito e nem halls para compensar o desgosto.
dancei
sozinho.
ele
deve ter chegado depois das duas; preferia encher a cara em algum boteco na
baixa augusta ou na vila antes. só depois costumava topar a balada. não se
importava se o lugar era barato. não sei se era por respeito a minha condição.
disse
não para algumas cantadas de generosidade que o álcool possibilita. em outras
vezes eu aceitaria, mas,
aquele
não era o tempo.
há
noites que me visto para alguém, não para o espelho.
ele
deve ter usado seu jeans skinny, o new balance novo, camiseta sem mangas long-shirt. barba rala? sim. deu pra
ver.
depois
da noite toda, confirmei.
rolou
todo o pop que curtíamos juntos, o eletro e o lighting que destacavam seus óculos escuros. pouco zoei. dancei
sóbrio.
então
pelas quatro resolvi sair porque julguei não me surpreender mais.
paguei
a comanda seca no cartão. assunto pro mês que vem. depois adivinho como vou
pagar.
haviam
alguns gatos pingados na rua. gente chapada, rachando de bêbada.
eu,
sóbrio.
andei
rumando o posto, desceria a augusta até o terminal bandeira.
eu na
esquina. ele encostado no carro do outro lado.
beijava
uma garota.
uma
garota.
meu
corpo desistido, o olho ardeu.
estou
na esquina assistindo ele beijar ela; o corpo que o quer.
eu
desistido.
não
será eu a quem ele deixará em casa nesta noite.
voltei
para o clube.
continuei
dançando, sozinho mesmo.
e sóbrio
enquanto a noite morre e ele leva, agora, ela.
(...)


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